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  • Foto do escritorHugo Crema

Expectativas não remuneradas

O mercado de trabalho não deveria chantagear quem se dispõe a trabalhar



Introdução


Existe uma grande polêmica em torno da realização de testes, amostras e apresentações em processos seletivos. A polêmica afeta o mundo de freelancers (tradutores, redatores, designers) e da tecnologia, mas tem repercussões em diversas outras dinâmicas de trabalho.


Para freelancers e devs, muitas vezes são propostos testes que fazem parte do trabalho normal da empresa, e que podem ser reaproveitados por essa. Nesse momento se instala uma tensão: para conseguir um trabalho, o freelancer deve, sem remuneração, entregar um produto sobre o qual a empresa pode ter proveito econômico?


Acredito que o mercado de trabalho não deveria chantagear quem se dispõe a trabalhar.


Por quê testes?


Neste momento, o mercado de trabalho vive um momento de demissões em massa, além da insistência em processos seletivos tortuosos e sem feedback.


Nesse cenário, é preciso distinguir testes que são estritamente necessários para aferir a qualificação de um candidato (inglês, português, programação) de testes excessivos que acabam por prolongar e dificultar o processo seletivo. Testes desnecessários têm o efeito de desmotivar o potencial candidato.


No caso dos freelancers, o que eles buscam e o que a empresa busca é a mesma coisa: uma relação sustentável de confiança. Os dois lados deveriam partir do pressuposto da boa-fé. Como é possível que um relacionamento profissional frutífero comece por pedir à outra parte para trabalhar de graça?


Mesmo que a empresa goste do trabalho, ela não vai pagar por ele. Da mesma forma, o freelancer não consegue sobreviver com apenas vagas promessas futuras de trabalho e exposição. Pessoalmente, quando me pedem amostras de tradução, eu direciono a pessoa para este blog, onde mostro meu trabalho. Para aulas de inglês, minha política é só realizar aulas demonstrativas de forma remunerada.


Definição de papéis


No Brasil, devido à baixa produtividade e aos altos custos, é comum equipes trabalharem desfalcadas e profissionais trabalharem mais para compensar. O problema parece ser menos falta de vontade de trabalhar e mais que um profissional seja obrigado a realizar vários papéis ao mesmo tempo.


Isso leva a uma confusão entre o que é a atividade-fim da empresa e atividades de apoio. A atividade-fim da empresa deve ser conduzida por funcionários efetivos. São eles que têm acesso às normas, padronização e linha de comando produtivas. Pedir a um freelancer que, como um teste, traduza um memorando para um cliente é como pedir a um estagiário de desenvolvimento de software para criar um código e, sem revisar, incorporar aquele código ao produto final.


Devemos entender que um candidato em processo seletivo, um trainee, um estagiário e um freelancer encontram-se em uma área cinzenta de responsabilização, principalmente porque não estão integrados ao career track da empresa e não podem ser cobrados da mesma forma que funcionários efetivos.


No fim das contas, é muito arriscado pedir a um candidato que entregue uma amostra, apresentação ou teste durante o processo seletivo e, depois, reutilizar esse material dentro da empresa.


Mesmo que não se reutilize esse material, existe um limite a partir do qual é antiético exigir que um candidato empregue horas produtivas apenas para, quem sabe, conseguir um trabalho. Ao contratar um marceneiro, a empresa não exige que ele produza uma mesa como teste e sem remuneração.


Outros segmentos


A mesma lógica se aplica ao mundo da gastronomia. Com o anúncio do fechamento do NOMA, um dos restaurantes mais famosos do mundo, uma reportagem¹ apurou que a cozinha operava com 34 cozinheiros contratados e 30 estagiários não remunerados.


Há, ainda, escritórios de advocacia trabalhando da mesma forma. Ao enxergar estagiários como uma forma barata de terceirização da atividade-fim, alguns escritórios afastam do estágio o caráter de formação supervisionada, levando a extremos de cobrança. Esse tema foi bem documentado ao longo de 2022, levando à criação do projeto Escritórios Expostos, no Instagram.


Conclusão


É compreensível que gestores e empresários queiram que estagiários e freelancers mostrem trabalho, mostrem seu valor. Ao mesmo tempo deve-se preservar a natureza do contrato entre as partes. No estágio, a natureza é de aprendizado e supervisão. Para o freelancer, a natureza é de fornecimento de serviços.


Exigir a realização de testes desarrazoados corrói a confiança entre as partes, gera ressentimento e dificulta a captação de talentos no mercado. Os melhores profissionais são atraídos para os melhores projetos, onde haja menos atrito e mais valorização.



¹ How NOMA made fine dining far worse. The Atlantic. 16/01/2023 [LINK]

² Escritórios Expostos. Instagram. [LINK]


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